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quarta-feira, 29 de junho de 2016

CRÔNICA DE CRONOS - A ESCRAVIDÃO INVISÍVEL



CRÔNICA DE CRONOS – A ESCRAVIDÃO INVISÍVEL

    “Cedo e transfiro meu direito de governar a mim mesmo a este homem, ou a esta assembleia de homens, com a condição de que transfiras a ele teu direito, autorizando de maneira semelhante todas as suas ações. Feito isso, a multidão assim unida numa só pessoa se chama Estado, em latim Civitas.
    Esta é a geração daquele enorme Leviatã, ou antes – com toda reverência – daquele deus mortal, ao qual devemos, abaixo do Deus imortal, nossa paz e defesa”.
                                                                     (Thomas Hobbes – Leviatã)
    Me lembrei de um trecho bíblico, no qual, o povo judeu, com inveja ou com alguma outra finalidade, pedem para que seja eleito um rei. Após grande insistência, o rei é instituído. À partir de então, inicia uma sucessão de guerras e de reis que culminam na dispersão do povo judaico por todo o mundo.
    Falta de aviso não foi. O povo pediu, mesmo quando Samuel enunciou os vários males que isso acarretaria:
    “Sabei, principalmente, que os vossos reis tomarão os vossos filhos para empregá-los em toda espécie de trabalho: uns para a guerra, como simples soldados ou oficiais; outros em sua corte, para servi-los em todas as coisas; outros para trabalhar em diversos ofícios; outros para cultivar a terra, como se fossem escravos comprados a peso de ouro. Tomarão também vossas filhas para empregá-las em diversos trabalhos, como empregadas, as quais, o medo do castigo obrigará a trabalhar. Tomarão as vossas propriedades e os vossos rebanhos para dá-los aos seus eunucos e outros domésticos. Enfim, vós e vossos filhos estareis sujeitos não somente a um rei, mas também aos seus servidores.
    Então vos lembrareis da predição que hoje vos faço e tocados pelo arrependimento de vossa falta, implorareis, na tristeza de vosso coração, o auxílio de Deus, para vos libertar de tão rude sujeição. Mas ele não ouvirá as vossas orações e vos deixará sofrer o castigo que a vossa imprudência e ingratidão mereceram.”
    Como foi que o ser humano chegou à conclusão que é necessário um governo para comandar a vida, decidindo sua sorte, suas leis, suas fronteiras, suas crenças e origens?
    Porque devemos eleger alguém ou algo para nos governar, ou criar leis, que muitas vezes não é o que a multidão quer. Sabemos que todo governo é passível de corrupção, assim como, podem existir pessoas boas ou más. E que todo poder gera certa soberba e mitomania. Acabamos criando o que Thomas Hobbes designa como o monstro Leviatã, o deus mortal, ao qual, todos se alienam e dizem: Amém.
    Talvez nesse mundo novo que a humanidade busca, o ideal era uma consciência anárquica, na qual, cada um tem o direito de ser livre em sua forma de viver e construir o mundo. Ter a liberdade de ir e vir, comprar ou vender, criar ou destruir, ser bom ou ruim.
    Alguns dirão, há a necessidade de leis. As leis existem e acima delas já existe, para alguns, a liberdade de construir o mundo de outra forma, onde impera o ideal anárquico, além das fronteiras, além da economia e do comércio, além do que se pode criar ou destruir, além do que é bom ou ruim.
    Mas para estes viverem além das leis pregadas aos escravos delas, devem ser idolatrados, endeusados como os possuidores das soluções. Mas as soluções favorecem apenas aos que estão acima das velhas leis empoeiradas que dizem que você deve nascer, crescer, aprender as mentiras da história, as divisões da geografia, os cálculos aproximadamente exatos, e milhares de coisas que disseram para você e para seus antepassados, serem verdades. Inventam deuses, demônios, heróis, traidores, filósofos e céticos. Todos fazendo parte da grande máquina chamada Estado. Onde, seus passos são marcados e observados, e você é apenas um número. Um número na maternidade, no registro de nascimento, no registro geral como cidadão de algum lugar, na chamada da escola, no registro de salário, seja empregado ou autônomo, no registro de casamento, de pai ou mãe, de aposentado, e por fim, um número estará em sua lápide.
    Mas não acaba aí. Mesmo depois da morte, o governo quer comandar o que você deixou. Então, vemos um livro de 1651, de Thomas Hobbes, que morreu em 1679, se tornar patrimônio da humanidade. O pensamento do autor já não é dele, é de algo que passa a governar este pensamento. Lembrando, que muitos livros ou ideias são proibidas em alguns lugares.
    E novamente criam guerras e governos por causa das diferentes ideias, prevalecendo sempre a vontade de alguns, enquanto que a maioria serve apenas como combustível e alimento deste grande Leviatã.

Elder Prior.