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domingo, 23 de julho de 2017

A ESCRAVIDÃO



    O Homem conheceu Eva, sua mulher, ela concebeu e deu à luz Caim e disse: Adquiri um homem com a ajuda de Iahweh.

    Depois ela também deu à lua Abel, irmão de Caim. Abel tornou-se pastor de ovelhas e Caim cultivava o solo.

    Passando o tempo, Caim apresentou produtos do solo em oferenda a Iahweh, Abel por sua vez, também ofereceu as primícias e a gordura do seu rebanho. Ora, Iahweh agradou-se de Abel e de sua oferenda. Mas não agradou de Caim e de sua oferenda, e com o rosto abatido.

    Iahweh disse a Caim: Porque estás irritado e porque teu rosto está abatido? Se estivesses bem disposto, não levantarias a cabeça? Mas se não estás bem disposto não jaz o pecado à porta, como animal acuado que te espreita, podes acaso dominá-lo?

    Entretanto Caim disse a seu irmão Abel: Saiamos. E, como estavam no campo, Caim se lançou sobre seu irmão Abel e o matou.

    Iahweh disse a Caim: Onde está seu irmão Abel? Ele respondeu: Não sei, acaso sou guarda de meu irmão? Iahweh disse: Que fiseste! Ouço o sangue de teu irmão, do solo clamar para mim! Agora é maldito e expulso do solo fértil que abriu a boca para receber de tua mão o sangue de teu irmão. Ainda que cultives o solo, ele não dará mais seu produto, serás um fugitivo errante sobre a terra.

    Então Caim disse a Iahweh: Minha culpa é muito pesada para suportá-la. Vê! Hoje tu me banes de solo fértil, hei de ocultar-me longe de sua face e serei errante fugitivo sobre a terra, mas o primeiro que me encontrar me matará. Iahweh lhe respondeu: Quem matar Caim será vingado sete vezes. E Iahweh colocou um sinal sobre Caim a fim de que não fosse morto por quem o encontrasse. Caim se retirou da presença de Iahweh e foi morar na terra de Nod, a leste de Éden”.
                                                               

                                                               GÊNESIS 4;1-16

 



Caim é a representação da humanidade em marcha, em sua busca insaciável pelo novo, pelo diferente. O Paraíso, que representa sua consciência limitada pela Natureza, não lhe basta. Ele quer mais, quer conhecer o infinito. Para conhecer o infinito é necessário evoluir e arcar com as consequências de suas ações. Adão e Eva, que representavam o equilíbrio entre macho e fêmea, positivo e negativo, viviam da coleta de frutos. Simbolizavam a humanidade primitiva e limitada em consciência, colhia seus frutos e vivia em paz com os animais da floresta, sem a ânsia devoradora que surgiu na mente do novo homem. O Caim, desafia o equilíbrio existente e leva o novo humano rumo ao ilimitado, criando o que os antigos povos chamavam de Karma, a lei que se expande junto com a consciência artificial que a humanidade foi criando. Esta consciência artificial é conhecida como Vício. O Vício cria a roda da Fortuna, perpétua, movimentando-se como uma roda viciosa. Todos os vícios são uma roda contínua e torna-se um hábito corrosivo, gerando até uma certa disciplina. Quanto mais artificiais são os vícios criados pelos homens maior peso do Karma. O fumante que cria o habito de fumar e tomar café. O alcoólatra que passa todo dia depois do serviço para tomar uma (uma????). E por aí vai, tornando a roda quase eterna e sem limites.

    Esta humanidade descobriu que podia ir além, e além do além. Já não é mais o Homem do Paraíso, esperando tudo vir do céu. Agora raciocina. Começa procurar o conforto, e encontra seu primeiro imóvel: a Caverna. Na Caverna e no conforto, houve a necessidade de ter plantações próximas, fazendo surgir a agricultura. O ser humano percebe que as sementes caídas ao chão geram novas plantas, desenvolvendo os rudimentos da agricultura. Rudimentar no início, mas evolui deixando para traz o velho paraíso, onde o Homem não se encaixa mais. A sua concepção de conforto assimilou as cavernas e a agricultura, expulsando o Paraíso. O deus interior do ser humano, seu Leviatã, o leva a ser expulso do paraíso para iniciar uma nova fase em sua vida, a egolatria.


 


     Com a agricultura, criam-se utensílios para cultivo, culminando em apetrechos cortantes que seriam futuramente usados para caça e guerra.

    Talvez, já havia caça no velho paraíso, mas apenas pequenos animais. Quando o ser humano descobriu os utensílios que o equipou de poder mortal, se tornou mais forte. Seu raciocínio aumenta junto com sua ânsia de poder e de artificializar o mundo, devorando-o em sua fome, instigada por Behemoth, a outra besta do abismo intelectual.
    Um dia, provavelmente mataram a mãe de um animal, deixando-o órfão, dando outra ideia ao Homem: “Porque não criar o animal assim como nós criamos plantas?”  Então o ser humano aprende criar animais e satisfazer seus desejos de ter sempre em sua volta um ser para dominar.
    Nasce a Escravidão. E o primeiro conceito de hierarquia forçada. Um conceito que a humanidade jamais deixaria de lado. Ao contrário, é um conceito que se amplia ainda hoje, onde as nações ricas escravizam as pobres, sugando seus recursos e riquezas, se instalando como idôneas indústrias, vestindo peles de cordeiro.
    Estas evoluções geram série de mudanças profundas no intelecto humano, refletindo no resto. Este Homem achou ter mais poder, e de fato, o tinha. Sua ideia, aderida pela tribo, fazia os velhos costumes mudarem seus rumos. O Homem já não andava nu, ou quase, pela floresta. Usava agora roupas feitas de peles de animais, as quais deram início às diferenças das diversas tribos. O Homem Caim matava o Homem Abel, por causa da sua inveja.  Sendo expulso do pensamento da nova tribo, preferindo continuar o seu rumo. Os agricultores preferem continuar na agricultura e deixar que os criadores de animais os excluam. Havia nascido a inveja, e fatalmente, ocorreu a expansão das duas maiores Bestas humanas, em consequência de seus erros e desequilíbrios. Nasce com elas a violência. A violência atrai a oposição, surgindo guerras entre os povos. A humanidade descobre que além de matar animais, seus utensílios matam também o próprio Homem.
     No Gênesis, Deus adverte Caim: “Se procedes bem, não é certo que serás aceito? Se procedes mal, o seu desejo será contra ti, a ti cumpre dominá-lo”.
    O desejo de Caim é a criação das monstruosidades internas. O desejo, a ação viciosa se vira contra seu criador, alimentando uma reação, o livro da Justiça Divina, a balança do karma. Infelizmente, nosso egoísmo não nos deixa ver que é preciso viver em comunhão e que o Universo é equilíbrio. Está correto o Gênesis quando diz que o desejo do Homem se viraria contra si, enlouquecido pelo seu desejo de poder. Este é o Leviatã apoiado em Behemoth.

Elder Prior